terça-feira, 4 de outubro de 2011

A perspectiva das personagens femininas na literatura de romances históricos: "A tenda vermelha", "A mulher de Pilatos" e "As brumas de Avalon"

     Hoje eu quero falar de livros! Olhando minha estante, e posso dizer, com certeza, que consumo muitos livros durante o ano, fiz uma lista de futuras postagens que pretendo escrever! 

     Para quem já fez alguma visita anterior ao Midori Sakura, talvez seja provável que já tenha esbarrado com alguma "resenha" minha (coloco entre aspas mesmo pois, resenha, para mim, é algo mais sério e cuidadoso se comparado aos meus modestos e despretensiosos comentários!). Vendo a tag "HI, MISS ALICE", já escrevi em defesa dos best-sellers (sim, os considero literatura!), sobre histórias de vampiros, anjos, e sonhos, já citei Marina Colasanti, Raphael Draccon e Ondjaki, assim como J.K. Rowling, Lewis Carrol e William Shakespeare. De uma certa forma, transitei por caminhos diversos, porque a literatura tem isso: ser vasta e rica!

     Pois bem! Voltando à minha estante, e cabe destacar que só ficam nela livros que realmente me são importantes, eu quero começar novas postagens, e decidi iniciar isso a partir de um tema que eu aprecio muito: a perspectiva de personagens femininas em romances históricos na literatura contemporânea. Para isso, eu escolhi comentar um pouco três títulos, que aparecem a seguir não por uma ordem aleatória, ou por ano de lançamento, mas pela sequência em que entrei em contato com as respectivas obras!

"A tenda vermelha"
Autora: Anita Diamant
Editora: Sextante
Ano de lançamento: 2006
Status: Esgotado

Resumo:
"Na Bíblia, as mulheres ocupam um lugar à sombra, por isso ficamos privados de sua sensibilidade na descrição dos acontecimentos. Numa narrativa envolvente, Anita Diamant resgata esse olhar feminino e dá vida às personagens bíblicas, recriando o ambiente em que viveram, seu cotidiano, suas provações e suas paixões.
Filha de Jacó e Lia, Dinah - cuja trajetória é apenas sugerida no Livro do Gênese - é a figura central desta trama, que começa com a história das quatro esposas de Jacó, a quem ela chama de "mães": Lia, Raquel, Zilpah e Bilah. O amor delas e o legado que lhe transmitem servem de apoio durante a fase de trabalho duro da juventude, no ofício de parteira e na vida nova em uma terra estrangeira.
À medida que cresce, Dinah observa tudo o que se passa no deserto: as conquistas, a rivalidade entre os irmãos, a sensualidade intuída, a aspereza do relacionamento entre os homens, a complexidade dos sentimentos das mulheres, a construção de um povo descrita a partir da saga de um núcleo familiar. De espectadora, ela passa a protagonista, e são seus amores, medos, descobertas e perdas que vão sendo narrados no cenário mais amplo de um mundo bíblico de caravanas, pastores, agricultores, príncipes, escravos e artesãos.
Ganhador do importante prêmio O Livro de Ficção do Ano 2001 concedido pela Associação dos Livreiros Independentes Americanos, com mais de dois milhões de exemplares vendidos, A tenda vermelha é uma fascinante viagem à época em que nossa civilização e nossos valores começaram a ser delineados."

Comentários:
     Conheci esse livro ao pegar na livraria um exemplar, cedido pela editora, do primeiro capítulo. Confesso que fui fisgada às primeiras linhas. A escrita da autora é muito poética e extremamente intensa. Não é apenas uma versão do que poderia ter sido a história de Dinah - é a própria voz de Dinah, como que transcrita por Anita - a narração ocorre em primeira pessoa. Escrevo isso porque, antes de ambientalizar uma personagem bíblica, o enredo não tem como objetivo fazer um paralelo ao pouco que se conhece dos hábitos sumérios por meio de passagens na Bíblia, mas ir além, explorando como seria a vida, principalmente a vida  das mulheres, em uma sociedade onde o Cristianismo ainda engatinhava, e o Sagrado era buscado/expresso pelo politeísmo, com grande reverência-referência ao feminino.
     A obra é dividida em três partes, mas não pretendo entrar em detalhes aqui, evitando fazer spoilers! A leitura é fluida, envolvente e bastante impactante, principalmente acerca das descrições detalhadas de rituais que eram praticados àquela época. Enfim, "A tenda vermelha" é uma história de amor e de ódio, de morte e de vida, de momentos tensos e de momentos delicados. Recomendadíssima! Tanto que encontra-se esgotada na editora!


"A mulher de Pilatos"
Autora: Antoinette May
Editora: Sextante
Ano de lançamento: 2008
Status: Esgotado

Resumo:
"Nascida com o dom da premonição, Cláudia era atormentada por visões de guerra e morte desde a infância. Apesar de não poder interferir no curso da história, ela faz de tudo para evitar um dos mais trágicos acontecimentos de todos os tempos: a crucificação de Jesus. Ao saber da paixão de sua amiga Miriam de Magdala por um religioso radical chamado Jesus de Nazaré, Cláudia prevê um futuro terrível. Quando Jesus é preso, ela suplica ao marido Pôncio Pilatos que o inocente. Mas, cedendo à vontade do povo, Pilatos lava as mãos e o condena. 
Mesmo casada, Cláudia se apaixona perdidamente pelo gladiador Holtan, mas continua lutando ao lado do marido para manter a ordem na sociedade romana, tomada pelo caos político e social. Repleto de romance, religião, aventura e suspense, este livro apresenta a possível vida dessa misteriosa mulher que, apesar de aparecer uma única vez na Bíblia, está profundamente ligada à história do cristianismo."

Comentários:
     Essa, com certeza, foi uma das sinopses mais ruins que eu já li e, se não fosse a vontade maior de adquirir o livro por ter uma expectativa boa, eu não o compraria. A pessoa responsável por sua divulgação acabou por restringir a história do livro apenas ao 'subtítulo' da obra. Convenhamos, quem leu sabe que não é bem assim!
     Eu descreveria esse livro como a perspectiva feminina de uma das possibilidades de vida das mulheres de Roma, no século I d.C. A personagem de Cláudia é uma iniciada em Mistérios, e é bastante interessante a descrição que a autora faz das fases pelas quais ela passa, os rituais pelos quais busca evoluir dentro de sua religião, a qual remete ao Sagrado Feminino.
     Em meio a sofrimentos, incertezas, descobertas e crescimento pessoal, o enredo, narrado em primeira pessoa, assim como em "A tenda vermelha", é muito rico, a escrita bem desenvolvida, e é uma pena que a obra em português ganhou impressa na capa, antes mesmo do título, a frase "A dama do Império Romano que tentou salvar Jesus Cristo", ao invés do original "A novel of the Roman Impire". Péssimo hábito das editoras brasileiras esse, de limitar as ideias de um livro com o único objetivo de fazer propaganda.



"As brumas de Avalon"
Volumes: "A Senhora da Magia", "A Grande Rainha", "O Gamo-Rei" e "O Prisioneiro da Árvore"
Autora: Marion Zimmer Bradley
Editora: Imago
Ano de lançamento da coleção completa: 2008


Resumo da coleção: 
"Guinevere se casou com Artur por determinação do pai, mas era apaixonada por Lancelote. Ela não conseguiu dar um filho e herdeiro para o marido, o que gera sérias conseqüências políticas para o reino de Camelot. Sua dedicação ao cristianismo acaba colocando Artur, e com ele toda a Bretanha, sob a influência dos padres cristãos, apesar de ser juramento de respeitar a velha religião de Avalon. 
Além da mãe de Artur, Igraine e de Viviane, a Senhora do Lago que é a Grande Sacerdotisa de Avalon, uma outra mulher é fundamental na trama: Morgana, a irmã de Artur. 
Ela é vibrante, ardente em seus amores e em suas fidelidades, e polariza a história com Guinevere, constituindo-se em a sua grande rival. Sendo uma sacerdotisa de Avalon, ela tem a Visão, o que a transforma em uma mulher atormentada. 
Trata-se, acima de tudo, da história do conflito entre o cristianismo, representado por Guinevere, e da velha religião de Avalon, representada por Morgana. 
Ao acompanhar a evolução da história de Guinevere e de Morgana, assim como dos numerosos personagens que as cercam, acompanhamos também o destino das terras que mais tarde seriam conhecidas como Grã-Bretanha. 
"As Brumas de Avalon" evoca uma Bretanha que é ao mesmo tempo real e lendária - desde as suas desesperadas guerras pela sobrevivência contra a invasão saxônica até as tragédias que acompanham Artur até a sua morte e o fim da influência mítica por ele representada. 
Igraine, Viviane, Guinevere e Morgana revelam através da história de suas vidas e sentimentos a lenda do rei Artur, como se ela fosse nova e original."


Comentários:
     "As brumas de Avalon" foi outra dica de uma vizinha que ama ler, e que acabou me emprestando a coleção! Acho que todos, de alguma forma, já ouviram ou se encantaram, ao menos uma vez, com a história de Rei Arthur... Após ler "A tenda vermelha" e "A mulher de Pilatos", fiquei curiosa para saber como havia sido desenvolvida a narrativa dessa grande lenda pela perspectiva de mulheres tão diferentes e fortes como Igraine, Viviane, Morgana e Gwenhwyfar.
     Apesar de a fonte impressa ser super pequena, o que faz pensar que os livros são bastante curtos (!), a leitura é muito fluente. O ritmo da narrativa não cansa, e Camelot e seus conhecidos personagens, revisitados, são incríveis! Novamente, a religião se apresenta no enredo, e rituais de iniciação e magia são abordados. A valorização do feminino e a importância de um equilíbrio entre esse lado e o masculino também estão presentes. Uma das melhores questões que destaco é "o que seria ser religioso?" para as personagens? As respostas e dúvidas estão aí!
     Após ler "As brumas de Avalon", é impossível permanecer com as mesmas imagens tradicionais do legendário Arthur. As ideias fervilham com novas possibilidades!


     Bem, vou ficando por aqui!
     Acho que o que fica, após encerrar essa postagem é que, antes de pensar em querer definir qual a melhor versão, a possibilidade de podermos contar com pontos de vistas diferentes, como os exemplos apresentados, apenas enriquece ainda mais essas histórias, e nos permite pensar além daquilo que é proposto pelo senso comum. 

     Cabeças pensantes são sempre necessárias! Abram os olhos e vislumbrem novos horizontes: eis uma bela forma de aprender, respeitar e valorizar a diversidade como um todo (seja na ficção, seja na vida!)

     Até a próxima!

P.S.: Apenas como nota de esclarecimento, os resumos dos livros aqui abordados (bem como os que já foram utilizados em outras postagens de 'resenha') não foram feitos por mim. São apenas textos de divulgação elaborados pelas editoras ou sites de compras (no caso dessa postagem, do site Submarino!)

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