quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Inspiração do dia: Sobre círculos...

     

Um círculo não tem início nem fim; mas isso apenas depois que já está formado.
Para que um círculo seja formado, porém, primeiro não há nada e, então, seja o que for que vá dar forma a ele, corre por um trajeto que só fará sentido quando completar toda uma volta e se encontrar com o ponto inicial. É então que se compreende o motivo do trajeto. E tanto o início quanto o fim daquela forma não apenas se tornam impossíveis de ser identificados como também isso deixa de importar.
Porque a única coisa que passa a ser vista é somente o todo da figura completa.
Cada lágrima que você derrama é um círculo que abre ou se fecha dentro de você. E, sejam vidas criadas por semideuses, sejam semideuses criados por forças maiores, cada lágrima derramada é preciosa, pois as alegrias nos dão sentido, mas são as cicatrizes que nos tornam mais fortes.
Todo deus um dia será esquecido. Todo semideus um dia deixará de existir.
E o que sobrará da passagem de cada uma dessas energias vivas são círculos formados através de ciclos que não podem ser detidos. E seja por onde eles vierem a correr, e seja por onde eles vierem a tomar forma, tais ciclos não serão lembrados por seus inícios ou finais, nem por suas larguras, nem por seus diâmetros, somente pela perfeição da figura formada pelo todo.

Cada lágrima jorrada sobre a terra jamais será perdida.
Ela irá cair e se misturar à terra. E então, quando o calor vier, ela irá evaporar e, ao se juntar com outras, tornar-se-á chuva. E quando o ar decidir dançar nuvens carregadas, cada lágrima, antes derramada na terra, irá descer novamente sobre nossas cabeças, abençoando e trazendo êxtase. Um êxtase que irá permanecer até que outras delas sejam mais uma vez derramadas sobre a terra e o todo recomece.
Como em um eterno ciclo. Como em um esplêndido e inesgotável círculo. Um círculo que sempre irá nos ensinar que...
A dor é inevitável.
... vale a pena percorrer a jornada. Mesmo porque...
O sofrimento é opcional.
... o círculo sempre se fecha.

Ainda que nos corações mais fracos. Ainda que nas mentes mais instáveis. Ainda que nas vidas mais vazias.
O círculo se desfaz, mas ele nunca se rompe.

Ainda que por vezes pareça difícil, ainda que doa, ainda que fraqueje, percorra o círculo completo. Seja caminhando pelo círculo de fogo, seja caminhando pelo círculo de chuva, o final de todo círculo da vida ainda terá sempre o mesmo valor.
Todo ciclo um dia irá terminar, é verdade. Mas o que sobrará dentro de você, e o que sobrará de você nesse ciclo, jamais irá se perder. Ou se romper.
Ou se apagar.

Todo deus um dia será esquecido. Todo semideus um dia deixará de existir.
Mas, enquanto eles não forem esquecidos, e enquanto você existir, continue a jornada.

Simplesmente percorra o círculo.

Raphael Draccon em Círculos de Chuva, p. 533-4.

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